O desperdício como gerador de valor na saúde!

Muito se tem falado e muito se tem escrito sobre eficiência de uma forma geral, e no SNS de uma forma muito particular. Frequentemente, a eficiência é associada a cortes nos custos e recursos disponíveis, o que se revela definitivamente uma forma muito redutora de pensar o tema.

De acordo com um texto publicado na revista da APDH, da autoria de A Dias Alves1, intitulado “Sustentabilidade na Saúde”, “um terço do gasto com saúde nos EUA é desperdício (…) e 98000 mortes evitáveis ocorrem anualmente por erros clínicos nos hospitais dos EUA”. Paralelamente, também a PriceWaterhouse aponta o desperdício global anual no sistema de saúde dos EUA como 1,2 a 2,2 Triliões de dólares, enquanto o NHS traçou como objectivo um programa de redução do desperdício de 2011 a 2015 de 20 milhões de libras.

No que se refere a Portugal, o Sr Ministro da Saúde apontou, em Fevereiro de 2015, para um desperdício de 10 por cento do orçamento total do ministério2.

Segundo um artigo no JAMA (Berwick, 2012) 3 “Eliminating waste in US healthcare”, é frequente os programas de contenção de custos focarem-se na redução de questões estruturais, contudo pode optar-se por uma estratégia menos lesiva, nomeadamente reduzir o desperdício, e com isso as actividades sem valor acrescentado. Apenas em 6 das categorias de desperdícios (Duplicação de tarefas, falhas na coordenação de cuidados, falhas nos processos, complexidade administrativa, fraude e abuso) as estimativas mais baixas excedem os 20% do total das despesas com a saúde. Por outro lado, há que referir que as poupanças associadas à eliminação desses desperdícios são bem maiores do que as obtidas com cortes nos cuidados de saúde ou na cobertura dos mesmos.

Assim, podemos afirmar que a eficiência vem normalmente associada ao desperdício,3nomeadamente à sua optimização e que nesta medida, a eficiência aumentará à medida que conseguimos superiores reduções de desperdício. Fruto do variado trabalho de campo e estudos realizados é frequente encontrarmos blocos operatórios, farmácias hospitalares, hospitais de dia, como grandes áreas de melhoria contínua.

Considera-se que existem vários tipos de desperdício, tal como referido por Rico, 2015 no American Journal of Medical Quality. Esta análise caracterizou 8 desperdícios na saúde e o papel do Lean na sua identificação.

A premissa deste conceito envolve a geração de valor tendo por base o facto de que a simples redução de desperdícios permite por si só aumentar os níveis de qualidade associados a cada processo, sem dispor, na maioria das situações, de mais recursos humanos, sistemas de informação ou alterações a nível dos edifícios.

Paralelamente, quando falamos em Valor, esse surge em contraposição com o desperdício, sendo fundamental definir o que é Valor.

Segundo as definições do Lean, cada tarefa tem que cumprir, simultaneamente, 3 princípios para ter valor acrescentado: transformar o processo, ser valorizado pelo utente/cliente, e resultar à primeira.

É essencial que esta análise processual seja feita multidisciplinarmente, por todos os intervenientes no processo, de modo a que seja discutido entre todos o que poderá ter ou não

valor, de entre todas actividades efetuadas. Tendencialmente, num futuro próximo, o doente deverá vir a ter um papel ativo nesta discussão, pois só ele pode responder sobre aquilo que valoriza, sobre a informação que necessita, bem como a forma de lhe ser transmitida.

Ainda que à partida tudo isto pareça quase familiar, fácil e ao alcance de cada um, a realidade mostra que este é um ponto verdadeiramente crítico. Até que ponto bastará o senso comum para por em prática estas tão desejadas melhorias? O sector da saúde tem características únicas que exigem uma visão especializada com vista a conseguir extrair o que de melhor metodologias como o Lean podem proporcionar às organizações. Desta forma, torna-se necessário capacitar os diferentes profissionais de saúde e gestores com conhecimentos nesta área de forma a garantir os tão desejados outcomes, apoiados em muitos casos por especialistas que tragam o olhar externo, e que possam fazer as perguntas necessárias.

O conceito de eliminação do desperdício nos processos surge muito associado à metodologia Kaizen (mudança positiva), também conhecido por Lean. Esta metodologia de melhoria contínua surgiu inicialmente na Toyota, desenvolvida pelo Sr Taichi Ohno, tendo dado origem ao “Toyota Production System”. Numa década de 60 ainda a recuperar da II Guerra Mundial, onde a indústria automóvel Japonesa sentia enormes dificuldades em competir a sua congénere Alemã, Taichi Ohno apercebeu-se que dada a escassez de recursos (humanos e de investimento), a forma de aumentar a competitividade da Toyota seria tornar os processos mais simples, assegurando a qualidade pretendida.

Se é verdade que o Kaizen ou Lean começou no Japão e na indústria automóvel, também é verdade que rapidamente esta metodologia se alastrou a outros sectores de actividade, inicialmente na logística, e mais tarde na aeronáutica e na saúde surge no início dos anos 2000.

Atualmente, hospitais como Mount Sinai, Clinic Mayo, John Hopkins, Cleveland, Ministérios da Saúde do Canadá, Suécia, Dinamarca, procuram assegurar erro Zero nos processos através desta metodologia, o que se reflecte em consideráveis ganhos financeiros.

De acordo com Womack e Jones, historicamente consideravam-se 7 tipos de desperdícios que incluem: Tempo, Deslocação, Inventário, Duplicação de tarefas, Processo, Defeito, Transporte. Recentemente foi acrescentado o oitavo desperdício: o do talento.

De entre os desperdícios anteriormente descritos, destacam-se:

Tempo: embora possa não ser o desperdício mais frequente na saúde, é sem sombra de dúvida um dos mais fáceis de identificar. Basta pensarmos nas salas de espera, e o quanto, por muito confortáveis que sejam, não são mais do que o acomodar um desperdício evidente, ao ponto de hoje em muitos dos mais prestigiados hospitais, a redução ou extinção do número de cadeiras na sala de espera seja um indicador de qualidade, havendo caso, em que o processo foi desenhado sem sala de espera, o que demonstra o foco no Valor na óptica do utente/cliente.

Deslocação: estando quase sempre associado a um aumento de tempo, seja para os profissionais seja para o doente, permite identificar processos não lineares, bem como os fluxos de informação e assegurar que a mesma não se perde, mas que também não é registada ou pedida em duplicado, procurando “apenas” assegurar a informação necessária, para o doente certo no momento certo, da forma adequada.

Talento: este é sem dúvida dos mais desafiantes, mas também talvez o mais critico, e a dois níveis. As organizações são cada vez mais confrontadas com profissionais diferenciados, que

executam tarefas que deveriam ser “externalizadas” para outros profissionais, aumentando o Valor acrescentado do que fazem. Por outro lado há outro tipo de desperdício de talento, que se prende com os profissionais não serem envolvidos nas soluções de melhoria das ineficiências identificadas.

Por fim, os efeitos, que no conceito de Womack e Jones, se distinguem do erro. Segundo os autores, erro é qualquer desvio do procedimento esperado que pode ser detectado e parado, e que quando isso não acontece, transforma-se em defeito.

Aqui surge o primeiro desafio, ou até mesmo provocação: com quantos erros nos cruzamos, e porque não é da nossa área pessoal de actuação, deixamos que continue e aceitamos que o mesmo se possa tornar num defeito junto do doente?

Nesta procura de acrescentar valor, e de assegurar o incremento contínuo de qualidade, os diversos profissionais de saúde têm que ser envolvidos nos processos de melhoria, mas também chamar a si o papel de identificar, de uma forma activa, os desperdícios com que se cruzam no seu dia-a-dia.

Só quando todos passarem a ver o desperdício e até mesmo o erro como uma oportunidade de melhoria e não como um facto acusatório, estarão reunidas as condições para gerarmos valor para os doentes, e aumento de eficiência para as organizações.

Perante isto, o desperdício pode ser um gerador do Valor que pretendemos para a Saúde!

Bibliografia

1Alves, Dias. “Sustentabilidade na saúde em tempos de mudança: uma perspectiva de gestão”, APDH

2Campos, Alexandre, “Por ano, Há 800 milhões de euros que são mal gastos na Saúde”, Publico, 25 de Fevereiro de 2016

3Berwick, Donald.”Eliminating Waste in US Health Care”, Jama, 2012

Imagem:mapeamento multidisciplinar do processo pré-cirúrgico no CHLC/HDE

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