Porque a Tecnologia Falha na Saúde (Quando os Processos Não Existem)

2026

A Ilusão da Tecnologia como Solução para Tudo

Comprámos o Sistema. E Continuámos com os Mesmos Problemas.

Nos artigos anteriores falámos sobre o esquecimento da gestão de operações e sobre o desperdício financeiro silencioso que corrói os sistemas de saúde. Hoje quero falar de uma armadilha que muitos gestores conhecem bem, mas na qual continuamos a cair.

Existe uma crença muito difundida na saúde: se o problema é operacional, a solução é tecnológica:

Os processos estão lentos? Compramos um sistema.

A informação está dispersa? Implementamos uma plataforma.

As listas de espera crescem? Digitalizamos o agendamento.

A intenção é boa. A lógica, à primeira vista, faz sentido. O resultado, demasiadas vezes, é uma desilusão cara.

O Maior Fracasso Tecnológico do Setor Público: O Caso NPfIT

Em 2002, o governo britânico lançou o National Programme for IT (NPfIT), o maior programa civil de tecnologia de informação alguma vez tentado no mundo. O objetivo era nobre: digitalizar o NHS, criar registos eletrónicos integrados para cada doente em Inglaterra, ligar 30 mil médicos de família a 300 hospitais.

O projeto foi lançado com um orçamento inicial de 6,2 mil milhões de libras. Nove anos seguintes, em setembro de 2011, foi oficialmente desmontado. O custo total ultrapassou os 9,8 mil milhões de libras, com benefícios estimados de apenas 3,7 mil milhões, metade do investido. O Comité de Contas Públicas do Parlamento britânico classificou-o como “um dos piores e mais dispendiosos fiascos de contratação da história do setor público.”

O que correu mal? Não foi falta de dinheiro. Não foi falta de ambição. Foi algo muito mais fundamental.

O projeto não teve em conta o envolvimento adequado dos utilizadores finais, não teve uma abordagem faseada de gestão de mudança, e subestimou a escala da transformação necessária.

Em resumo: implementaram tecnologia sem preparar os processos e as pessoas que a iam usar.

 

📌 Fonte: Campion-Awwad O. et al. (2014). The National Programme for IT in the NHS: A Case History. University of Cambridge. / UK Parliament Public Accounts Committee (2013). Dismantled National Programme for IT in NHS.

https://www.cl.cam.ac.uk/archive/rja14/Papers/npfit-mpp-2014-case-history.pdf

Tecnologia sem processo é apenas a automatização da ineficiência

Este não é um caso isolado. É um padrão.

Apenas 38% dos líderes de saúde consideram que as suas implementações de sistemas de registo clínico eletrónico foram bem-sucedidas, segundo um relatório KLAS Research de 2025… Num setor que investe milhares de milhões em transformação digital todos os anos.

Os motivos são quase sempre os mesmos. 34% das organizações apontam a gestão de mudança e a adoção como a principal barreira, e 30% identificam a formação inadequada como um desafio crítico. Não é o software que falha, é tudo o que está à volta dele e que nunca foi verdadeiramente trabalhado.

Há ainda uma consequência que raramente aparece nos relatórios de implementação: o impacto nos profissionais. Um estudo da Universidade de Stanford concluiu que 74% dos médicos reportaram um aumento das horas de trabalho após a implementação de sistemas de registo eletrónico, com 71% a atribuir o seu burnout diretamente a esses sistemas.

Comprámos esperança de eficiência. Gerámos exaustão.

 

📌 Fontes: KLAS Research / Arch Collaborative Report (2025). EHR Implementation Success. / Stanford Medicine (referenciado em EHRinPractice, 2024).

https://klasresearch.com/archcollaborative/report/ehr-implementations-2025/628

O problema não é a tecnologia

Importa deixar claro: a tecnologia não é o inimigo, sendo em sim mesmo algo fundamental a ter em conta. Os registos eletrónicos, os sistemas de agendamento inteligente, as plataformas de apoio à decisão clínica, todos eles têm um papel genuinamente transformador quando bem implementados.

O problema não é a sequência. É a ilusão de que instalar uma tecnologia equivale a mudar uma organização.

A literatura é ambivalente quanto ao impacto dos sistemas de registo eletrónico na eficiência: vários estudos registam uma diminuição da eficiência dos processos de trabalho após implementação, enquanto outros registam melhorias. A diferença entre os dois grupos não está no software. Está na forma como a mudança foi preparada, gerida e sustentada.

Digitalizar um Processo Mau Só o Torna Mau Mais Depressa

Digitalizar um processo mau não o torna bom. Torna-o mau mais depressa, a maior escala, com maior custo de reversão.

A pergunta certa não é “que sistema vamos implementar?”. A pergunta certa é “que processos vamos mudar, e como é que a tecnologia vai suportar essa mudança?”

Quantas vezes somos forçados a adaptar processos ao modo como funciona a tecnologia, quando deveríamos ter a tecnologia a conseguir gerar eficiência no processo desenhado!

Quantos exemplos de desperdícios de sobre processo, ou seja, de atividades sem valor acrescentado que são criadas pela obrigatoriedade de ações geradas pela tecnologia, como exemplo “clicks” obrigatórios que em nada acrescentam ao processo, e muitas vezes o atrasam.

A tecnologia deve seguir o processo. Nunca o substituir! Voltando a repetir, não é a tecnologia que está em causa, mas sim a fraca cultura de processos que vivenciamos em muitas organizações de saúde!

No próximo artigo: o poder das pequenas automatizações, e porque é que as transformações mais impactantes começam muitas vezes por tarefas que ninguém quis questionar.

 

Rui Cortes

Rui Cortes é fundador da Lean Health Portugal e da Value Health Data e reúne mais de duas décadas de experiência na interseção entre saúde, operações e dados, após 16 anos na indústria farmacêutica.
 
É licenciado em Marketing, doutorando em Saúde Pública e docente convidado em várias instituições, com trabalho reconhecido internacionalmente através das apresentações do AoT e do SoT no World Hospital Congress.