Bloco operatório vazio

Desperdício na Saúde: O Custo Silencioso que Está a Afetar os Sistemas de Saúde

2026

Desperdício na Saúde: O Custo Silencioso que Está a Afetar os Sistemas de Saúde

O desperdício na saúde é um dos maiores problemas financeiros do setor e, segundo a OCDE, pode representar entre 10% e 34% de toda a despesa. Ao contrário dos erros clínicos ou das urgências cheias, este desperdício é silencioso, invisível e profundamente estrutural.

 

Nos artigos anteriores (A Gestão de Operações em Saúde, Gestão do Tempo em Saúde) falámos sobre como a gestão de operações se tornou um facto esquecido do setor da saúde. Neste artigo pretendo colocar números nesta nossa reflexão. Porque quando o desperdício não tem nome nem valor, é fácil ignorá-lo.

 

Existe uma forma de desperdício na saúde que não sobressai. Não tem o drama de um erro médico nem a visibilidade de uma urgência em colapso. É um desperdício silencioso, ligado a processos ineficientes e a falhas de gestão de operações em saúde, que acontece diariamente, dentro de cada organização de saúde, custa milhões aos sistemas de saúde, e não é um tema exclusivo de Portugal!

 

A OCDE publicou um relatório com um título esclarecedor: Tackling Wasteful Spending on Health.

A conclusão é desconfortável: o desperdício na saúde pode representar entre 10% e 34% de toda a despesa nos países membros. Não estamos a falar de fraude ou de má gestão evidente. Estamos a falar de processos que não funcionam, de recursos mal alocados, de cuidados prestados no sítio errado, da forma errada, à pessoa errada.

Os países da OCDE gastam em média 9% do PIB em saúde, sendo três quartos desse valor suportado pelos governos. Uma parte significativa desse dinheiro não está a gerar valor. E ao contrário do que acontece noutros setores, pouco se mede deste tipo de desperdício. Deixo a questão para quem lê este artigo…. Qual o nível de desperdício e ineficiência organizacional na sua organização ou no seu serviço?

 

Desperdício no Bloco Operatório: Dados e Impacto Real

O bloco operatório é um dos recursos mais caros e simultaneamente um dos maiores focos de desperdício na saúde. Equipamentos de alta precisão, equipas especializadas e infraestrutura complexa tornam qualquer ineficiência especialmente cara.

 

E como é gerido?

 

O bloco operatório, sendo um dos recursos mais caros de qualquer hospital, é também um dos mais mal geridos. Segundo uma revisão publicada no Journal of Orthopaedic Experience & Innovation (Cholewa et al., 2024), a taxa de cancelamento de cirurgias eletivas situa-se entre 10% e 40% consoante a dimensão e tipo de hospital, sendo que entre 20% e 78% desses cancelamentos têm origem direta na má organização dos horários cirúrgicos e não em causas clínicas. Falhas de agendamento, falta de coordenação entre serviços, informação que chega tarde ou incompleta. O mesmo estudo aponta que até um terço dos horários de bloco pode estar subaproveitado, traduzindo-se num desperdício sistemático de um recurso de elevado custo.

Este subaproveitamento revela um problema clássico de ineficiência hospitalar e desperdício operacional — exatamente o tipo de falha que metodologias como o Lean Healthcare procuram eliminar.

Um bloco parado não é apenas uma cirurgia adiada. É pessoal especializado em standby, equipamento amortizado sem produção, e um doente em lista de espera que podia ter sido operado. O custo real raramente aparece num relatório. Distribui-se pelo sistema e torna-se invisível.

 

Desperdício de Tempo dos Profissionais de Saúde: O Problema Invisível

Há outra forma crítica de desperdício na saúde: o tempo dos profissionais de saúde gasto em tarefas administrativas que não geram valor. Esta ineficiência reduz a produtividade hospitalar, aumenta custos e compromete o acesso aos cuidados.

Burocracia, documentação redundante, sistemas que não comunicam entre si: todos sinais de processos clínicos ineficientes e de falhas na gestão hospitalar.

Nos EUA, este problema está quantificado: cada médico gasta o equivalente a 68 mil dólares por ano apenas a lidar com processos administrativos. Na Europa, Portugal incluído, o fenómeno não é diferente na sua natureza, apenas menos medido, o que o torna ainda mais difícil de combater.

Em Portugal, o SNS enfrenta pressões semelhantes. O grupo de critérios com pior desempenho nos hospitais públicos portugueses é precisamente o da eficiência e produtividade, sugerindo desperdício de recursos. Não é falta de competência clínica. É falta de atenção aos processos que suportam essa competência.

Será esse uma das causas de o investimento em Saúde, e em Tecnologia não parar de aumentar, e o desempenho não melhorar na proporção do crescimento desse investimento?

 

Porque o Desperdício na Saúde é Difícil de Ver e Difícil de Resolver

desperdício financeiro na saúde é difícil de combater precisamente porque é invisível e raramente medido. Sem métricas de produtividade hospitalar e sem avaliação sistemática dos processos, a ineficiência perpetua-se.

Numa fábrica, uma linha de produção parada é imediatamente visível. O custo é mensurável ao minuto. Na saúde, o mesmo fenómeno, um recurso crítico subutilizado, um processo mal desenhado, uma tarefa feita duas vezes, dilui-se entre serviços, turnos e centros de custo. Ninguém é responsável. E por isso, ninguém o resolve.

Os países poderiam gastar significativamente menos em saúde sem qualquer impacto no desempenho dos sistemas ou nos resultados de saúde. Esta não é uma opinião, mas sim a conclusão de uma revisão sistemática da OCDE. O dinheiro está lá. O problema está na forma como é usado.

O desperdício que não se mede, seja desperdício clínico, desperdício financeiro ou ineficiência nos processos de saúde, não pode ser eliminado. E o que não se mede não se pode melhorar!

 

O primeiro passo é aceitar que grande parte do problema financeiro da saúde não está nos preços dos medicamentos, nem no envelhecimento da população. Grande parte do problema financeiro da saúde resulta da forma como os recursos são utilizados. Melhorar a gestão de operações em saúde é uma condição essencial para reduzir desperdício e aumentar o valor para o doente.

 

Se quer saber como medir o desperdício na sua organização e iniciar a transformação Lean, subscreva a nossa newsletter ou contacte-nos lean@leahealth.education

 

No próximo artigo: porque é que comprar tecnologia sem mudar processos não só não resolve o problema, como muitas vezes o agrava.

Rui Cortes

Rui Cortes é fundador da Lean Health Portugal e da Value Health Data e reúne mais de duas décadas de experiência na interseção entre saúde, operações e dados, após 16 anos na indústria farmacêutica. É licenciado em Marketing, doutorando em Saúde Pública e docente convidado em várias instituições, com trabalho reconhecido internacionalmente através das apresentações do AoT e do SoT no World Hospital Congress.

Linkedin