Quando a academia encontra o hospital

2026

O que uma tese de mestrado em simulação computacional nos ensina sobre a gestão das urgências.

Este artigo resulta de uma colaboração entre Rui Cortes e Maria Felizes, e junta a experiência do terreno com o trabalho académico desenvolvido.

O problema silencioso da gestão hospitalar

 

Entre 2013 e 2023, Portugal teve em média 70 idas à urgência por cada 100 habitantes, mais do dobro da média da OCDE. E 42% dessas idas foram, segundo o próprio SNS, casos não-urgentes. Casos passíveis de serem resolvidos no Âmbito dos Cuidados de Saúde Primários.

As contas não ajudam. Uma ida à urgência custa ao SNS cerca de 85,91 €. Uma consulta nos cuidados primários custa entre 21,63 € e 38,04 € por hora. Cada doente encaminhado para o sítio certo poupa até 80 € ao contribuinte. Sem contar o tempo de médico que fica livre para casos efetivamente urgentes.

Continuamos a tratar isto como se fosse um problema de recursos. E se for, antes de tudo, um problema de fluxo?

 

Simular antes de mexer

Na indústria ninguém abre uma linha de montagem sem a simular. Na aviação ninguém põe um piloto a voar sem milhares de horas de simulador. Na saúde, o normal ainda é testar directamente no terreno, com doentes reais a servir de cobaia involuntária.

A Simulação de Eventos Discretos (DES) faz o que nenhum gestor consegue fazer de outra forma: recria em computador o fluxo real de uma urgência, com toda a sua confusão natural (picos de afluência, turnos, tempos de exame), e deixa testar dezenas de cenários sem tocar no sistema vivo. Numa revisão PRISMA de 29 estudos publicados entre 2014 e 2025, a DES aparece em 75% dos trabalhos sobre melhoria de urgências.

 

O estudo: 53.879 episódios, quatro cenários

A tese do mestrado em Engenharia e Gestão Industrial, recentemente defendida por Maria Sofia Sarradell Felizesno Instituto Superior Técnico, em parceria com a Lean Health Portugal, construiu um modelo do fluxo de doentes na Urgência Geral de um hospital do SNS. Calibrou-o com 53.879 episódios reais de 2024 e validou com erros abaixo de 2,5%.

Depois testou quatro cenários:

  • Unidade de Cuidados de Saúde Primários (CSP) co-localizada, em duas versões: só diurna e 24 horas.
  • Fast-Track interno para doentes Verdes, 24h, com um médico dedicado por telemedicina.
  • Híbrido: UCSP + Fast-Track.
  • Fast-Track sazonal, só para doentes respiratórios não-urgentes no Inverno.

 

Três resultados que mexem com ideias feitas

O gargalo não está onde se julgava. As vias Não-Ambulatória e Pequena Cirurgia do HBA funcionam com regularidade. A via ambulatória, essa, está afogada, com uma utilização médica acima dos 100%. Para o percurso ambulatório, os tempos eram em média, para doentes Amarelos, 7.3 horas, para doentes Verdes, 10.6 horas e para doentes Azuis, 12.4 horas. Não é uma falta generalizada de médicos. É um desencontro entre o tipo de procura que entra e o tipo de resposta que o hospital está desenhado para dar.

Nem todas as soluções pesam o mesmo. A CSP só diurna alivia enquanto está aberta. Quando fecha, a procura volta. A CSP 24h baixa a espera dos Verdes em 58,9% e os abandonos em 94,2%. O Fast-Track por telemedicina vai mais longe: corta a espera em 79,5% e praticamente elimina os abandonos (99,4%), com um único médico dedicado, sem tirar pessoal à urgência aguda.

Pôr mais médicos 24h parece boa ideia, mas não é a melhor. Produz melhorias maiores num primeiro olhar, só que a nova capacidade é engolida pela procura que existia em lista de espera. A sobrecarga volta. Redireccionar a procura, em vez de a perseguir com mais oferta, resolve a estrutura do problema. E custa muito menos. Não aproveitar estes resultados é desperdiçar conhecimento já produzido e validado, atrasando uma mudança que poderia ser rápida e estrutural.

 

O potencial desperdiçado

Uma tese assim são seis a doze meses de trabalho de um engenheiro altamente qualificado, com orientação de professores que passaram décadas em investigação operacional. Para o hospital, o custo marginal é zero. Para a universidade, é o custo de formar um aluno que ia formar-se na mesma.

Apesar disso, a maioria dos hospitais portugueses nunca colaborou com uma tese destas. Quando colabora, é quase sempre porque um clínico ou administrador tem um contacto pessoal na universidade. Não há um canal institucional, uma lista de problemas em aberto, nem um processo para pegar nos resultados e pô-los a funcionar.

Dá em dois desperdícios ao mesmo tempo. Nas universidades, teses muito boas feitas sobre dados sintéticos ou sobre casos estrangeiros, porque dados portugueses são difíceis de obter. Nos hospitais, decisões de centenas de milhares de euros baseadas em intuição ou em relatórios de consultoras a preço de mercado, quando havia, de borla, um recurso analítico de topo a 20 minutos de distância.

Esta tese é excepção porque juntou três coisas raras de estarem juntas em Portugal: uma universidade aberta à aplicação prática (IST), uma organização que fez a ponte (a Lean Health Portugal), e uma ULS com coragem para abrir os seus dados à academia (ULS Loures / HBA). Devia ser regra.

 

O que fazer a partir daqui

Três ideias concretas, directamente tiradas deste trabalho:

  • Redesenhar a porta de entrada, em vez de reforçar a retaguarda. Circuitos externos à urgência verdadeiramente a funcionar junto aos serviços de urgência, articuladas com a linha SNS24.
  • Simular antes de reformar. Qualquer mudança estrutural com custo significativo merece um modelo que antecipe o seu impacto. Enganar-se em computador não mata ninguém e não gasta dinheiro.
  • Dar estatuto institucional às parcerias universidade-hospital. Cada ULS podia publicar a sua lista de problemas operacionais em aberto, cruzada com as competências das universidades da sua região. O modelo já existe (Países Baixos, Reino Unido, Canadá), exemplos internacionais consolidados que podem ser diretamente replicados na nossa realidade.

Temos em Portugal o conhecimento e as pessoas para resolver boa parte dos problemas operacionais do SNS. Falta-nos pôr quem investiga a falar com quem decide, de forma sistemática.

 

Trabalho de tese: Maria Sofia Sarradell Felizes, “Evaluating Emergency Department Improvement Scenarios in the Portuguese NHS Using Discrete-Event Simulation”, Instituto Superior Técnico, março de 2026. Orientação: Prof. Daniel Rebelo dos Santos (IST) e Rui Neves Cortes (Lean Health Portugal). Colaboração com Hospital Beatriz Ângelo / ULS Loures.

 

Rui Cortes

Rui Cortes é fundador da Lean Health Portugal e da Value Health Data e reúne mais de duas décadas de experiência na interseção entre saúde, operações e dados, após 16 anos na indústria farmacêutica.
 
É licenciado em Marketing, doutorando em Saúde Pública e docente convidado em várias instituições, com trabalho reconhecido internacionalmente através das apresentações do AoT e do SoT no World Hospital Congress.